01.06.20 Observatório Psicanalítico – 169/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Outra vez, “O ovo da serpente”?     

Cláudio Laks Eizirik (SPPA)

 

Em março de 2018, depois de participar do Congresso Europeu de Psicanálise, em Varsóvia, onde o tema do Holocausto foi enfrentado corajosamente, do ponto de vista humano e psicanalítico, fomos a Cracóvia e passamos um dia em Auschwitz. 

 

Nada do que se lê, ouve, vê em filmes, documentários ou séries, compara-se ao que acontece nessa visita ao maior cemitério ao ar livre da Europa. Tudo em Auschwitz é horrível: o portão de entrada, com a sinistra e perversa frase “O trabalho liberta”, as filas de visitantes, que lembram as filas de prisioneiros a caminho da morte, os edifícios sombrios de tijolo, cada cenário da degradação e da maldade humanas, as câmaras de gás, os barracões de madeira, o silêncio opressivo, os relatos mecânicos dos guias, as fotos e filmes das pessoas minutos antes de serem transformadas em cinzas, e principalmente o frio. Há um frio cortante, permanente, que nenhuma vestimenta, por mais quente que seja, é capaz de conter: o frio da morte.

 

Para Hanna Arendt (2005), que identificou a banalidade do mal, “os campos de concentração e de extermínio dos regimes totalitários servem de laboratório onde a crença fundamental do totalitarismo – tudo é possível – encontra-se comprovada. Os campos não se destinam apenas ao extermínio de pessoas e à degradação dos seres humanos: eles também servem à horrível experiência que consiste em eliminar a espontaneidade como expressão do comportamento humano e transformar a personalidade humana numa simples coisa”. 

 

André Green (1988) destaca que o monstro frio e cruel da destrutividade une-se às figuras mais tradicionais do mal; diz que o mal é insensível à dor do outro: ignora o sofrimento alheio e, ao contrário, busca aumentá-lo, mostrando assim suas origens narcísicas. Green considera o Holocausto a forma mais acabada e mais completa do mal, pois corresponde a um mal que nasce da desobjetalização, em razão da pulsão de morte. Assim, o sadismo impressiona menos que a eficácia de seu rendimento, e a crueldade parece menos terrível que o ardor pela ordem e pela limpeza no extermínio sistemático. 

 

Em suma, o nazismo, e tudo e todos que a ele se associam, é uma cruel negação dos valores humanos e da ética, dois pilares essenciais da democracia e da psicanálise.

 

Há poucos dias, Abraham Weintraub comparou uma operação da Polícia Federal contra alguns suspeitos de financiar manifestações contra a democracia e difundir fake news  à infame “Noite dos Cristais”.

 

A “Noite dos Cristais” foi um grande ataque organizado pelo governo nazista contra os judeus da Alemanha, em 9 de novembro de 1938, consistindo na destruição, quebra dos vidros, queima de lojas, sinagogas e outros estabelecimentos, com um número de mortos superior a mil e outras 30 mil pessoas presas e encaminhadas para os campos de concentração. Este evento é considerado o início formal das perseguições que levariam à morte 6 milhões de judeus e  milhões de outras pessoas pelo regime nazista. 

 

Logo após a manifestação do ministro, entidades e autoridades judaicas nacionais e internacionais protestaram de forma veemente contra tal comparação, que ofende a memória e a tragédia do povo judeu e de milhões de pessoas durante o Holocausto. Para mim, como para muitos outros brasileiros, tanto judeus como não judeus, que tenham um mínimo de noção histórica, ética e decência, esse tipo de utilização de episódios de tal magnitude em busca de justificativa para ações criminosas por pessoas ou instituições constitui uma afronta e uma indignidade inaceitáveis. 

 

Vários membros do atual governo têm se manifestado ou utilizado o nazismo. Os exemplos vão do inacreditável à pura e simples mentira: dizer que o nazismo é um movimento de esquerda (Ernesto Araújo, Bolsonaro, 2018), usar trechos de discursos de Goebbels, ao som de Wagner (Roberto Alvim, 2020), comparar o uso do isolamento social como prevenção à contaminação pelo coronavirus com os campos de concentração (Ernesto Araújo, 2020), uso do infame lema  “O trabalho liberta“ (SECOM, 2020),  uso do leite numa Live, símbolo da pureza étnica e dos neo-nazistas e supremacias brancos (Bolsonaro, 2020). Tudo isto pode ser visto como a clara expressão da inspiração nazista e fascista para o atual governo. Mas há mais, a cada dia. 

 

Na madrugada de domingo, 31 de maio, um grupo de pessoas com roupas pretas, máscaras de filmes de terror e tochas protestou em frente ao STF. Domingo pela manhã, montado num cavalo, Jair Bolsonaro participa de ato que pede intervenção militar e no STF.

 

Leio agora a manifestação do bravo Decano do STF, Ministro Celso de Mello, comparando o Brasil deste momento à Alemanha de Hitler e dizendo que os bolsonaristas querem instaurar uma abjeta ditadura. O Decano faz alusão ao filme de Ingmar Bergman, “O Ovo da Serpente” (1977), que retrata as origens da instalação do nazismo na Alemanha.

 

Ora, Adorno (2015), em seus Ensaios sobre psicologia social e psicanálise, examinou alguns aspectos da propaganda fascista, destacando que costuma ser personalizada, glorificar a ação, a religião e o patriotismo, oferecer às massas a realização de seus desejos e, principalmente, apesar de toda sua lógica enviesada e distorções fantásticas, ser algo conscientemente planejado e organizado. O agitador fascista, diz Adorno, é usualmente um exímio vendedor de seus próprios defeitos psicológicos, visando uma identificação inconsciente de seus seguidores. É característico dos demagogos fascistas se vangloriar de terem sido heróis atléticos em sua juventude. Os típicos líderes fascistas são frequentemente chamados de histéricos, mas o fato é que atuam de forma vicária por seus ouvintes desarticulados, ao fazer e dizer o que estes gostariam, mas não conseguem ou não se atrevem a fazê-lo. Hitler, diz Adorno, foi aceito não apesar de suas esquisitices baratas, de sua entoação falsa e de suas palhaçadas, mas precisamente por causa delas. 

 

Destaco, por fim, a noção de que a destrutividade e a agressividade são um fundamento psicológico do espírito fascista. Seus programas são abstratos e vagos, as satisfações espúrias e ilusórias, porque a promessa expressa pela oratória fascista nada mais é do que a própria destrutividade.

 

Vivemos tempos sombrios e preocupantes. De minha parte, penso que toda essa série de alusões ao nazismo, bem como a sucessão de atos, bravatas, agressões a jornalistas e à imprensa, ameaças ao legislativo, ao STF, aos governadores e prefeitos, ao lado da mais absoluta indiferença à trágica realidade da pandemia que nos ameaça a todas e todos, encontram notável semelhança com as características descritas por Adorno sobre a forma de atuar dos regimes fascistas, e ao oportuno manifesto do Ministro Celso de Mello. 

 

Estamos vivendo uma dupla e terrível ameaça. Por um lado, o horror do Covid-19, e a desmobilização pelo governo do ministério que o enfrentava com bravura, e os ataques aos governadores e prefeitos que lutam com os recursos de que dispõem. Por outro, o vírus do fascismo, que despudoradamente mostra mais, a cada dia, sua face sinistra e ameaçadora à democracia.

 

Há uma crescente mobilização nacional, por todos os meios disponíveis, e acima das diferenças partidárias, para defender nossa democracia e nossas instituições. Este é o momento, como tem sido enfatizado em inúmeras manifestações aqui no OP, em que todos(as) nós devemos erguer nossa voz em defesa dos valores humanos e éticos que estão sendo ostensivamente ameaçados, sem os quais corremos o risco de reviver os horrores do nazismo e do fascismo.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

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