22.05.20 Observatório Psicanalítico – 167/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

Lavando pratos e pensando … O amanhã

Ney Marinho (SBPRJ)

 

A tarefa/arte de lavar pratos, atividade a que muitos de nós tem se dedicado ultimamente, propicia uma formidável liberdade de pensamento, uma verdadeira associação livre, tão difícil de encontrar em nosso cotidiano, independente dos confortos dos consultórios. O que se segue são frutos desta prática, com as devidas censuras, correções, elaborações secundárias. Não têm uma ordem argumentativa, mas guardam certas invariâncias: o amanhã e o obsessivo tema da desigualdade. Visam um estímulo ao pensar. Vamos aos pratos.

 

“ … De que amanhã se trata?” – Todos nós nos perguntamos como será o amanhã depois desta pandemia. Nossos bizarros governantes já respondem apressadamente que tudo voltará ao normal, da manicure às academias de ginástica, passando pelo mercado financeiro, e que os funcionários públicos – os mais humildes de preferência – devem dar o exemplo (sic) abrindo mão de reajustes por dois anos e recebendo as medalhas (acho que numa referência aos profissionais de saúde em particular) após a batalha (sic). Nosso pinochetista ministro esqueceu de esclarecer que as melhores condecorações serão post mortem

 

Ocorre-me, então, entre um pires – talvez, de pires na mão como gostaria nosso caridoso ministro – e uma xícara mal lavada, a leitura do manifesto iniciado por artistas e intelectuais franceses, liderado por Juliette Binoche, com assinaturas de peso (Robert de Niro, Pedro Almodóvar, uma dúzia de prêmios Nobel, filósofos como Jean Luc Nancy) que vai no sentido contrário, Não a um retorno à normalidade, com 200 assinaturas, no Le Monde de 5 de maio. Catástrofe ecológica, consumismo e desigualdade social, são as nossas endemias a serem suprimidas segundo o manifesto … caso desejemos permanecer, acrescento à la Freud. Senti a falta da assinatura do querido André Green, mas sei que foi por motivos alheios à sua vontade de psicanalista engajado. Mas, indo para a louça mais pesada – com gordura, que horror! – voltou o tema da desigualdade!

 

A extinção da desigualdade! – O retorno de um mesmo tema nunca é o mesmo, lembrança da querida Rosa Beatriz. A repetição tanto na história, como Marx já disse, como na vida pessoal, é uma farsa! Assim, entre um prato gorduroso e talheres ameaçadores veio o insight para o tema recorrente: o problema da desigualdade só tem um jeito … a sua extinção. Este foi o meu ovo de Colombo, minha estrada de Damasco, meu caleidoscópio que num leve toque mostra uma configuração nova e nos faz esquecer a anterior completamente! O que quer dizer a extinção da desigualdade? Isto me pediu várias etapas – varrer o chão da cozinha, novas relações com a vassoura, o pano de chão e a água sanitária (belo nome!) – que vou pular.

 

Pratos limpos – Vamos então colocar as coisas em pratos limpos – velha e incisiva expressão – ou seja: a desigualdade é uma questão política e não econômica. Cabe aos economistas de plantão fornecerem os subsídios, ou como alguns gostam: fazer o dever de casa, para uma política de inclusão social radical – uma segunda libertação dos escravos – pois quem sofre e morre, no dia a dia, é o nosso povo pobre, nordestino, negro ou mulato das comunidades ou favelas, como os meus vizinhos da Rocinha. É um grave erro buscar na economia a solução para a desigualdade. 

 

Durante a ditadura que nos infelicitou por 21 anos tivemos economistas dos mais qualificados no ministério da fazenda – como Mario Henrique Simonsen e Delfim Neto – ambos por mais de 5 anos no poder e nada conseguiram para acabar com essa chaga que nos humilha e assola. O milagre brasileiro dos anos 70 aumentou a desigualdade! O que se pede é uma sociedade que garanta: segurança, saúde (dever do estado e direito do cidadão, nas palavras do saudoso Ulysses Guimarães.), educação (em todos os níveis, até o superior, a qualquer filho de cidadão brasileiro; foi assim na Rússia quando virou União Soviética, como no Japão quando quis tornar-se uma potência capitalista. Saudades de Darcy Ribeiro!); cultura, moradia decente (com água, esgoto, luz e agora internet), e … trabalho. O povo não pede esmola ou favores, como parece ao nosso bizarro ministro da economia, mas a devolução do imposto que paga – muito mais do que nossos leitores, pois, 1 real do trabalhador equivale a 30 ou 40 de nosso rendimento! – ou, não haverá um verdadeiro pacto social! Entre um prato e uma travessa gordurosa (que horror!), atendendo um motoboy mascarado, me ocorreu o pensamento dos primeiros socialistas utópicos, pré-científicos: qual a diferença entre o trabalho braçal e o intelectual?! A rigor nunca encontrei resposta para tal questão. Reconheço minhas limitações intelectuais, mas nunca entendi como uns têm direito a tudo e outros … a nada!

 

O Leite Derramado – Como é difícil deixar os pratos, por a máscara, atender a porta, passar álcool, correr de volta à cozinha e ver mais uma vez (!) o leite fervendo e derramando-se no fogão … recém limpo! Apago o fogo e volto à faxina, com duas vozes me perturbando a mente. “Mas não foi isso que o Lula fez e despertou tanta raiva numa classe média, que veio a estourar no golpe contra a Dilma?”, mal posso responder e já ouço outra: “Tudo muito bonito, mas impossível … só falta agora você voltar a falar na paz mundial!”. Tomo cuidado para não quebrar a louça, já limpa e empilhada, e respondo laconicamente: minha proposta é diferente, não se trata de promoção de pessoas mas de extinção da desigualdade, uma outra forma de vida. À segunda voz concordo, mas replico: … só o impossível nos interessa, lembrando um grande amigo da psicanálise – Jacques Derrida – e o cruel Nelson Rodrigues em sua fala sobre “os idiotas da objetividade”. Reconheço que os dois argumentos são aparentementepoderosos: afinal fomos criados, educados e amestrados, filhos de uma sociedade escravocrata a tornarmo-nos, caso tenhamos êxito, senhores superiores, aristocratas por meritocracia … uma nova justificação para velhas castas. Vieram à mente os hospitais que frequentei e sua sofisticada hierarquia. Quanta hipocrisia este reconhecimento tardio – e planejadamente temporário – dos trabalhadores de saúde, da faxineira ao doutor! Ao segundo interlocutor acrescento: impossível era a sociedade que vivíamos, seu futuro … sair de cena, como Freud previu a Lou Andreas-Salomé, agora ou no Covid-20, que bem poderá ser uma pandemia bélica.

 

Ao café, ao jornal … às lágrimas – Findo o turno de trabalho matutino, posso sentar, abrir o jornal e servir meu neto. O sentimento de gostosa realização não dura muito. Vejo a fotografia de João Pedro, 14 anos, preto, risonho e simpático, morto em casa, por uma rajada de metralhadora de uma batida policial em uma comunidade de nosso estado. As demais notícias perdem o interesse – mais uma cafajestagem do Presidente, uma asneira do Trump, estatísticas de mortos e contaminados (estamos em busca de uma medalha, pelo entusiasmo do jornal). Lembro do Cartola (“… disfarça e chora”), o neto vai para sua aula online (Economia!) e vou para meu consultório online – com o coração cheio de mágoas mas de esperança – repetindo o mantra de meus pais: “ … a cada um segundo suas necessidades, de cada um segundo suas possibilidades”, quem sabe poderemos construir um mundo melhor em vez de desaparecer sem deixar saudades.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

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