07.05.20 Observatório Psicanalítico – 162/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

O Inconsciente e o Rio Maracanã

Daniel Senos (SBPRJ)

Para Aldir Blanc

 O rio Maracanã recorta o bairro que leva o seu mesmo nome, atravessa o coração da Tijuca e sobe em direção ao Alto da Boa Vista. Em seu percurso, acolhe as torcidas e lamentos dos aficcionados pelo futebol; os excessos dos ébrios que retornam para seus supostos lares; a bicicleta velha descartada, junto com o lixo juntado pelos habitantes locais. Sua água poluída, fétida, segue seu percurso, e, por vezes, transborda, lembrando-nos de todos aqueles detritos que tentávamos afastar de nossa existência, e que, impossíveis de serem contidos, insistem em retornar para nós. Todas as paixões contidas nesse frágil dique de concreto cedem lugar às ações da natureza e à incompetência antropológica.

O Aldir Blanc que carrego em mim é desses velhos suburbanos que se enfiam em botequins vagabundos, cantando serestas e boleros noite adentro. Os afetos e desafetos que permeiam o cotidiano da cidade, a angústia e os prazeres da existência humana e as tensões próprias à vida urbana são cantadas pelo poeta, que insiste em trazer a humanidade de volta para os dejetos que tentamos descartar, seja a lata de sardinha ou aquelas emoções mais profundas. Capaz de reivindicar o mesmo status social da protagonista de Anna Karenina para uma enfermeira moradora de Água Santa, Aldir Blanc nos ensina em sua obra que estamos em um eterno conflito entre trazer nossas paixões à tona ou delegá-las ao fluxo incerto do rio Maracanã. A sua grande lição, Aldir, foi nos lembrar insistentemente que somos feitos da mesma matéria que o boia-fria que sonha com bife à cavalo e batata frita, ansiando pela goiabada cascão. Claro, com muito queijo.

Diretamente da Tijuca para Viena, Freud também foi responsável por nos lembrar constantemente da nossa inevitável condição humana, marcada por conflitos incessantes que regem as nossas vidas. Somos marcados pela ferida narcísica de termos perdido o trono em nossos própria casa. Freud, ao construir uma teoria acerca das forças inconscientes que regem a subjetividade, postula uma instância inconsciente que insiste em se manifestar, em extrapolar as barreiras psíquicas que impomos, em uma busca incessante de satisfação. 

Essa dimensão inconsciente descrita por Freud é sistematizada pela primeira vez em seu estudo sobre os sonhos, onde encontramos a sua primeira teoria sobre a tópica psíquica. Gosto de pensar nessa primeira forma do pensamento freudiano como uma memória que se funda a partir do esquecimento. A partir de um primeiro ato de esquecimento algumas lembranças são deslocadas para um lugar obscuro, inacessível em um primeiro momento. No entanto, essas lembranças insistem em nos assolar em nossos sonhos, em atos falhos ou em piadas, expondo o que temos de mais singular e humano. O inconsciente freudiano não tem pudor em se mostrar.

O rio Maracanã transborda e traz nossas lembranças afetivas mais dolorosas e íntimas. Somos feitos de restos, de marcas, de acontecimentos que se inscrevem e constroem nossas histórias subjetivas e determinam as formas como nos relacionamos com o mundo. Aldir Blanc nos ensinou que os detritos que voltam com o transbordamento são partes nossas e formam o cerne do que chamamos de humanidade. 

Freud, por sua vez, nos deu a aterradora notícia de que não é possível fugir do curso natural do rio, uma vez que a parte mais obscura de nossa vida mental insiste em se manifestar. Acredito que o poeta e o psicanalista estão em confluência, pois ambos lidam com essas emoções brutas que extrapolam os diques da vida emocional. Enquanto o poeta canta as incertezas da vida, o psicanalista empresta a sua capacidade de pensar. Às vezes a tarde pode cair feito um viaduto. Cabe ao psicanalista acolher os escombros, enquanto o poeta canta as dores do mundo e nos enche de esperança. O show tem que continuar.

Em tempo, parabenizo a todos os colegas de ofício pela data de hoje e, emocionado, deixo minha homenagem ao compositor que mais influenciou em minha formação como músico e que habita a minha escuta na clínica.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

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