04.05.20 Observatório Psicanalítico – 161/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Tempos difíceis 

Julio Hirschhorn Gheller (SBPSP)

A pandemia nos obriga ao distanciamento social. Não sabemos até quando, pois a pesquisa de uma vacina de comprovada eficácia ainda deve demorar. Paralelamente, continua a busca de drogas que detenham a progressão da doença em pacientes infectados.

O novo coronavírus produz estragos mundo afora. Há dúvidas sobre o potencial da doença conferir imunidade a quem já se curou. Reinfecções seriam possíveis em novas ondas do vírus. As interrogações existentes nos deixam intranquilos quanto ao futuro. Podemos ser contaminados a qualquer hora. Se isto acontecer, seremos os felizardos com um quadro leve? Ou, pelo contrário, ficaremos entre os que evoluem de forma grave? Se escaparmos da morte, carregaremos sequelas? O isolamento poderá ser flexibilizado? E, caso aconteça, a flexibilização será temporária? Passaremos por sucessivas aberturas e fechamentos?

Com tantas incertezas, as análises online alcançam intensos níveis transferenciais e de elaboração, até porque não temos tempo a perder. O cenário apavorante acarreta defesas dissociativas, que tendem a se dissolver no setting analítico, permitindo o aprofundamento da experiência emocional. O que se nota é o desamparo, causando a demanda por ajuda de um nebenmensch, o ser humano próximo. E mesmo que mantida a assimetria no enquadre, os analistas precisam dos analisandos para se nutrir de vitalidade e esperança. Queremos todos sobreviver e escapar da ameaça que o coronavírus disseminou.

Numa crise desta dimensão, podem ser avaliadas as condutas de chefes de estado. Cheguei a me emocionar com manifestações dignas, ponderadas e realistas de Angela Merkel, Emmanuel Macron e Alberto Fernandez, entre outros. 

Penso no Brasil e é lamentável a atitude do presidente. No princípio, desdenhou da covid-19, dizendo que havia muita histeria em torno de uma mera “gripezinha”. Assim, já evidenciava acachapante ignorância e intenções de teor sociopático. Nesta linha, vem boicotando deliberadamente o isolamento social, seja por pronunciamentos disparatados, seja provocando aglomerações em passeios estapafúrdios. Costuma apertar a mão e tirar selfies com fãs incautos. Pior que isso, discursou para uma horda de ensandecidos defensores da intervenção militar, que pregavam o fechamento do Congresso e atacavam o STF. Note-se, aliás, que protestos contra estas instituições próprias da democracia continuam acontecendo e contando com o beneplácito do mandatário. Desprezo pela ciência e cultura, comportamentos estúpidos e ideias preconceituosas vão se sucedendo incessantemente. Ao falar, exibe inacreditável ausência de sensibilidade e empatia para com os doentes e age na contramão da maioria dos líderes mundiais.

Analisando a psicodinâmica deste personagem, constato extenso “combo psicopatológico”. O elemento paranoide é nítido, pois enxerga inimigos em toda a parte: Imprensa, Congresso, Judiciário e até entre aliados. Quem não o bajula deve ser combatido e, para este fim, funcionam as difamações via redes sociais. Observo traços da personalidade psicótica: arrogância, onipotência, onisciência e negação da realidade. Na vertente da psicanálise francesa, vislumbra-se uma estrutura perversa, que recusa a percepção da realidade, persegue a fruição do gozo – aqui entendido como prazer obtido à revelia de interdições – e persiste sempre na busca de um “a mais” de prazer. A inveja da popularidade de ministros resultou em demissões. A destrutividade da pulsão de dominação prevalece. Este conjunto de características converge para posturas grosseiras, truculentas, rancorosas e desagregadoras.

O espantoso é que seria tudo perfeitamente previsível para quem analisasse o histórico do “capitão”, que foi praticamente expulso do Exército por indisciplina. Na época, foram encontrados desenhos que indicavam um plano para colocar explosivos em quartéis e na adutora do Guandu. Processado pela Justiça Militar, acabou sendo reformado. Daí começou sua obscura carreira de deputado do baixo clero que jamais apresentou algo de relevante em vinte e oito anos de atuação parlamentar. Não ocultou a apologia à ditadura nem o elogio à tortura. Mantinha seu apartamento funcional, mesmo possuindo residência em Brasília. Indagado a respeito, respondeu que o usava “para comer gente”, em demonstração inequívoca de vulgaridade e desconsideração para com a coisa pública e para com as mulheres, vangloriando-se de seus dotes viris. No passado, em algumas oportunidades, deixou transparecer seu apreço por milicianos “do bem”.

Cabe a curiosidade sobre quem se iludiu com o candidato que não escondia suas facetas mais toscas e repulsivas. A classe média lavajatista, revoltada com os erros do PT, avistou uma solução para combater a corrupção e aliou-se aos interesses do mercado financeiro, sequioso por uma economia liberal de estado mínimo. Boa parte dos informais e da classe econômica baixa confiou cegamente no indivíduo “sincerão”, “gente como a gente”. 

Assim se construiu a falácia do líder autêntico, honesto e incorruptível, que acabaria com a “patifaria” na política. A elite conservadora e endinheirada, focada em preservar seus privilégios – e indiferente à indecorosa desigualdade social – achava graça nos seus rompantes bizarros. Acreditava que ele poderia ser controlado para servir aos seus interesses. Consequentemente, nosso personagem foi apoiado por diferentes segmentos da população. Todos eles, exceto os radicais de ultradireita violentos e retrógrados – excitados por encontrar um representante-mor –, se enganaram, pois a falta de ética, compostura e discernimento do candidato acabou por se acentuar ainda mais no presidente, crente que pode exercer seu mandato de uma forma autoritária e jamais vista na nossa história, assemelhando-se mais a  um chefe de gangue do que a um chefe de estado.

O que esperar neste triste país?

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