28.04.20 Observatório Psicanalítico – 159/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

“E a faculdade de sonhar  é uma poesia, que principia quando eu paro de pensar”

 Maria Teresa Lopes (SBPRJ)

 

No dia treze de abril, uma segunda sombria, dentro de uma névoa fria em minha casa, na serra fluminense, recebo de um amigo a notícia da morte do Moraes. Desabo, por um momento sou tomada por uma tristeza profunda, mais uma pessoa querida que parte de forma abrupta em um tempo onde não nos é permitido enterrar as pessoas de que gostamos. Moraes sempre foi, para mim, uma figura presente. Durante a minha adolescência, as suas músicas ecoavam em todo meu ser, e acredito que em muitos do que aqui estão lendo este texto. Ele tinha uma singularidade ímpar, a sua forma de ser, de se apresentar era consistente a tudo que representava.

 

Moraes nasceu em uma cidade do interior da Bahia Itauçu. Com dezenove anos, mudou para Salvador, para fazer o curso de medicina, mas a música tocou mais forte em seu peito desviando-o para o seminário de música da UFBa, e nesta época conheceu Baby Consuelo, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor e Luiz Galvão. Também assim nasceram os Novos Baianos, um grupo forte, com estilo bem marcado que conquistou o Brasil (1969 a 1975). Dali em diante, ele se lança em sua carreira solo trazendo músicas inesquecíveis. Moraes também tem o seu rosto marcado no movimento musical que unia inovações estéticas com elementos da tradição brasileira, o Tropicalismo. O diálogo entre vários gêneros musicais é a marca de sua trajetória.

 

A minha identidade com ele vem por sermos de uma cidade do interior, acreditava que a “felicidade é uma cidade pequenina, é uma casinha, é uma colina, qualquer lugar que se ilumina, quando a gente quer amar”, mas quem não acreditava? Além disso, a musicalidade trazida por ele com a fusão de elementos do frevo, da bossa nova, do samba, jovem guarda, tropicalismo e da musica internacional, o fazem único, deixando-nos um legado de músicas maravilhosas, alegres e bastante importante para a cultura brasileira.

 

Os anos se passaram, fui morar na Gávea, no Rio, e qual não é a minha surpresa descobrir que era vizinha de bairro dele. Nos reencontramos, ele mais velho, mas com o mesmo humor que lhe era peculiar, muito direto, tinha um vozeirão e muito galante. Eu tinha por hábito tomar café da manhã aos sábados na padaria que ficava em baixo da minha casa, e ali eu o encontrava rodeado de amigos falantes como ele. Sentava com seu jornal e dali saiam os assuntos da roda do café. Como eu estava quase sempre presente, eles acabavam me incluindo na conversa. Um dia, falei a ele de sua importância na minha adolescência. As suas músicas rompendo com os padrões, parecendo copiar os estilos de roupas coloridas, de forma bastante alternativa, me acompanham até hoje. 

 

Pensando um pouco aqui percebo agora que, não à toa, ele faz parte de minha história. Eu, como ele, rompi valores em busca de uma liberdade que só é permitida quando, aceitando nossas fraquezas, podemos deixá-las de lado e criar novos espaços psíquicos e seguir a vida. 

 

Pela música ele fez isso, e eu, por meio da psicanálise, embora ele também tenha tido seus momentos em um divã, segundo ele mesmo me contou.

 

O último café foi um pouco antes da padaria fechar suas portas. A padaria que nos acolhia com tanto carinho quebrou, e eu me lembro da sua música: “Lá vem o Brasil, descendo a ladeira…” Aqui vou usar essa música como metáfora, na música ele pega uma frase do João Gilberto, que em uma madrugada na Lapa, perto de uma ladeira vê uma mulata descendo, ainda bem cedo e diz: Lá vem o Brasil descendo a ladeira. E então me aproprio e digo com todas essas perdas nesse momento onde nem os queridos podemos enterrar, lá vem o Brasil descendo a ladeira de forma triste e perigosa, ameaçado pelo invisível que nos amedronta e nos afasta de todos.

 

Assim, fico com a sintonia do Moraes: “Escuta esta canção, que é para tocar no rádio, no rádio do teu coração, você me sintoniza, e a gente então se liga, nessa estação”.

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

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