17.04.20 Observatório Psicanalítico – 154/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

Corona vírus e nós

Daniel Delouya (SBPSP)

Mesmo que sejam conhecidas e banais, permito-me dividir algumas ideias com meus colegas. No manifesto da FEBRAPSI à População – Fique em Casa, a palavra ciência aparece diversas vezes. Restaura, assim, um respeito dos psicanalistas à ciência que tem sido desgastado nas últimas décadas. 

A ciência, forma de controle da natureza despertada pela pulsão de apoderamento e de domínio, seria, segundo Freud, uma das vias auxiliares da busca pela felicidade humana. Pulsão essa instaurada pela perda do sentimento oceânico, talássico, que imanta o mítico recinto nirvânico do ventre materno, ao qual almejamos retornar face ao desamparo que nos acomete ao cair no mundo. 

Estendemos uma mão comprida sobre a natureza, na tentativa de ampliar o controle de nossos órgãos de sentido, a serviço de nossa autoconservação. Não escapou a Freud que tal mão é regida pela pulsão de morte. Trata-se de uma insaciablidade,  de uma onisciência, onipresença e onipotência, que visa colmatar o fosso intransponível entre nós e o mundo para ludibriar a realidade do nosso desamparo.  Deflagra a destrutividade dos ideais, e dessa classe de ideais que predomina na política do mundo contemporâneo. Mal-estar, afirma Freud, culpa inconsciente por não conseguir atingir o gozo de quietude que nos aguardará quando “tudo estiver resolvido”. 

Nosso egoísmo (nossa paranoia narcísica) credita aos ‘outros’ o mal que nos acomete. São os vírus que nos invadiram ou somos nós que ultrapassamos fronteiras naturais cujos territórios deveriam ser respeitados? 

A polêmica sobre as mudanças climáticas está concentrada no desmatamento das florestas e em consequências como a depleção do oxigênio no planeta, e acabou deixando de lado outros alertas que têm sido proferidos por cientistas há mais de 40 anos. Das 335 doenças virais catalogadas desde 1960, 60% foram transmitidas de animais para o homem (entre eles o temerário vírus da Aids, que surgiu em 1982, para o qual até hoje não se encontrou uma vacina verdadeiramente eficaz). Todas elas consequências mais ou menos diretas da exploração de reservas naturais e de sua disseminação pelo mundo globalizado. Freud recomendou algumas vezes de que a teoria da evolução seja incluída, mais do que a psicologia geral, no currículo dos candidatos psicanalistas. 

Infelizmente grandes analistas como J. Laplanche zombaram das contribuições de Darwin. Muitos vírus de grande importância para a evolução do homem compõe uma parte considerável de nosso DNA, tendo sido inicialmente ativos, e com o tempo combatidos e vencidos pelo corpo humano, mas depois  desativados e integrados à sua história. Os morcegos que já habitam a terra há mais de 60 milhões de anos carregam igualmente uma série de vírus, inclusive da família Corona, entre eles provavelmente o Covid19, e contra os quais se defendem perfeitamente. 

O simpático mamífero Pangolim parece ser o vetor intermediário do Covid19 para o homem, já que no mercado oriental ele é um bicho bastante apreciado. Dele se extraem remédios naturais para a potência masculina, o que faz com que seja bastante valorizado. Os vírus da SARS e o vírus MERS, que nos atingiram em 2002 e 2009, respectivamente, são oriundos da mesma família do Corona e nos chegaram por meio de aves negociadas ou cultivadas nos mercados chineses, nas bordas do mundo globalizado. A letalidade desses é bem maior que a do Covid19, mas foram felizmente contidos a tempo, antes de gerar uma calamidade maior no mundo ocidental. Covid19 é considerado um vírus fraco, imaginem se fosse forte!! Embora tendo um efeito letal bem menor de que seus parentes SARS e MERS, sua resistência é bem maior e parece, segundo pesquisadores, que vamos conviver com ele por um bom tempo. Partilhando 72.8% com o genoma do SARS, ele se liga ao mesmo receptor ACE2 humano em mais de 52 ‘sítios quentes’. Já o SARS se liga ao mesmo receptor em 28 desses sítios, o que lhe garante uma adesão maior e requer uma sofisticação medicamentosa difícil de atingir. Um grupo francês mostrou que essa inteligência jamais poderia ser obra de manipulação de cientistas, como alegam as teses conspiratórias de nossos nocivos vírus fake-news diários. 

Bastam esses dados para refletirmos sobre o respeito que deve ser dado ao conhecimento da evolução. Aves e mamíferos (o homem inclusive) são semelhantes, tendo receptores similares e podendo travar conhecimento com os mesmos vírus. Poderiam nos ensinar sobre as consequências de nossa intervenção na natureza. O homem acelera a evolução, insiste em dominar a natureza e  precipitadamente, estende uma mão comprida, para explorá-la – e apanha! 

Fiquem em casa, vamos atravessar essa pandemia, vamos vencer, convivendo ou não com o Covid19. Ele e outros muitos vírus que eventualmente provocaremos devem entrar na conta de nossa política contemporânea quando essa guerra acabar. E tomara que seja logo!

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

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