21.07.17 Observatório Psicanalítico 15/2017

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

Moral sexual ‘’civilizada?’’

Susana Muszkat

 

Em recente artigo para o blog da SBPSP, fiz referência à dupla condição das redes sociais no que diz respeito às forças atuantes nas relações de gênero. Naquela ocasião, apontava para como a potência agregadora das redes sociais havia modificado uma situação de abuso na relação entre um homem em posição de poder e uma subordinada sua, do sexo feminino, que vinha sendo assediada moral e sexualmente. O recurso às redes deflagrou o movimento #MexeuComUmaMexeuComTodas, dando novo equilíbrio ao desequilíbrio anterior.

Hoje, aponto a condição inversa: o potencial violento e destruidor das redes sociais, ainda nas relações de gênero. Mais especificamente a forma como relações de intimidade entre homens e mulheres são veiculadas na rede, através de fotos que expõem a mulher em sua intimidade sexual. Tal recurso tem o intuito de humilhar, envergonhar, e desqualificar às mulheres com quem estes homens se relacionaram. São, com frequência, atos cujo cunho é o da vingança, e é uma unanimidade o reconhecimento do efeito desmoralizante e devastador que essas práticas têm sobre suas vítimas. As consequências têm caráter traumático levando ao isolamento, ao sentimento de vergonha profunda, de desamparo, de humilhação para si, para a família e filhos, perda da guarda ou do convívio com filhos, perda de trabalho, até o limite do suicídio. Isso atesta para a gravidade que é consequência deste tipo de violência. A questão da humilhação através do uso e da exposição sexual de mulheres é assunto quase que diário na mídia. E casos de abusos disseminados pelas redes sociais produzem uma condição de trauma permanente, onde, muitas vezes, a única forma de eliminá-lo é eliminando o alvo da humilhação, ou seja, a própria vida.

E por que será que colocar fotos de mulheres em situação de intimidade sexual tem tamanho apelo? Não me lembro de alguma vez ter visto na mídia qualquer situação análoga a essa com homens. Homens expostos em poses ou atos de cunho sexual não sofrem o efeito da humilhação ou desqualificação. Fotos com homens evocam o erótico e a potência, não tendo assim efeito traumático. Em suma, não se colocam fotos de homens na rede para humilhá-los; não cola. E qual é a diferença?
Já em 1908, no artigo Moral Sexual ‘Civilizada’ e Doença Nervosa Moderna, Freud refere um certo Von Ehrenfels ao dizer: “não é arriscado supor que sob o regime de uma moral sexual civilizada a saúde e a eficiência dos indivíduos esteja sujeita a danos, e que tais prejuízos causados pelos sacrifícios que lhes são exigidos terminem por atingir um grau tão elevado, que indiretamente cheguem a colocar também em perigo os objetivos culturais”. E mais adiante, “ No entanto, as diferenças naturais entre os sexos impõem sanções menos severas às transgressões masculinas, tornando mesmo necessário admitir uma moral dupla”.

Qual é esta dupla moral sexual onde, o desejo de poder (fantasia de antidoto contra o desamparo e impotência) autoriza uns à objetalização de outros, transformando-nos todos em qualquer coisa menos civilizados?
Durante mais de dez anos numa ONG, coordenei grupos de discussão com homens, cujo objetivo era a reflexão sobre lugares e papéis de gênero. Tais atribuições de lugares e papéis têm como consequência que muitas das violências praticadas no âmbito familiar se sustentem em crenças normativas, que determinam quais devem ser os atributos de homens e de mulheres em nossa sociedade “civilizada”.

Uma palavra altamente expressiva para ilustrar os lugares de gênero designados e esperados para homens e mulheres é vagabundo/vagabunda. A mesma palavra na língua portuguesa tem sentidos absolutamente distintos: para o homem aponta para aquele que não trabalha, não produz bens, atesta para sua impotência. Em relação à mulher, aponta acusatoriamente para aquela que expõe sua sexualidade, seu desejo sexual. A expressão da sexualidade na mulher a desqualifica como mulher honrada.

A internet e as redes sociais potencializam e disseminam os valores da dupla moral da sociedade “civilizada”; moral, essa, vale notar, que não é exclusiva do universo masculino, mas, sim, da cultura como um todo.
Como psicanalistas, podemos pensar na perpetuação da dupla moral, expressa na disputa pela manutenção de lugares de poder, como a manifestação disfarçada do temor ao desamparo, à impotência. A eterna busca de completude narcísica às custas do outro feito de “bode expiatório”.

Respostas violentas de homens em relação às suas companheiras atestam para os valores vigentes em nossa cultura, em que o sentimento de humilhação, para muitos, não pode ser admitido como algo do universo masculino. A resposta violenta – colocar fotos na rede – portanto, visa o resgate imaginado da autoestima por meio de uma demonstração de poder sobre a mulher, condição entendida como essencial e natural para a manutenção da virilidade dentro do sistema de valores predominante em nossa cultura.

Recentemente, li na Folha de São Paulo sobre o projeto de uma mulher cujas fotos íntimas, colocadas na rede por seu ex-namorado em 2006, têm consequências dramáticas que perduram até os dias de hoje. Inspirada na lei Maria da Penha, Rose Leonel criou a ONG Marias da Internet para ajudar outras mulheres que se tornaram vítimas da pornografia em rede. Há também um projeto em andamento para a criação de uma lei que categoriza como crime e prevê punição para tais ações.
Iniciativas como essas devolvem às vítimas seu caráter de humanidade, inserindo-as numa rede de apoio mais ampla, retirando-as do lugar de exclusão e pária. Medidas imprescindíveis para retomada de uma sociedade que se pretende civilizada.

 

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