26.06.18 Observatório Psicanalítico 56/2018

Ensaios sobre acontecimentos sociais, culturais e políticos do Brasil e do mundo.

 

Copa: encontros

Augusto Ferrari (SPPA)

 

A cada quatro anos, esse reencontro. Já foi esperado com maior fervor, é verdade (a vida lá fora não anda nada fácil, corrupção a mil, lava-jato perigando…), mas quando se liga a televisão, lá está! Tudo ficou, exatamente como deixado, e se sabe, enquanto o juiz não apitar o final da partida, estaremos plenamente envolvidos, atentos expectantes: tudo pode acontecer, vida-vitória ou morte-derrota, nossa, ou de quem escolhemos, como os nossos. Nessas ocasiões, quando um outro exército se torna o nosso, geralmente se escolhe o mais fraco. Mito de Golias contra Davi? A cada quatro anos, nesse Festival, se tem um encontro marcado. Conosco. Com nosso Eu infantil, herdeiro de Narciso, um representante de um tempo onde foram travadas lutas e, enfrentados lutos, que marcam para sempre. Entra-se em campo, ou entramos em um campo especial, mágico, onde realidade e o brincar estão irmanados e nossos (melhores) desejos, (se não houver juiz ladrão!), podem ser recompensados. Em cada rodada, são os nossos contra eles, o bem contra o mal. Nesse espaço (transicional) estamos lá dentro, no centro dos acontecimentos. Nossa senso percepção não nos trai. Temos visão em vários ângulos, até em “super slow motion”, e se pode ouvir-ver-sentir-imaginar o outro: a surpresa, a dor ou a alegria do seu olhar; a intenção do movimento e, aquilo que, reconheça-se, é o principal, onde está? Para onde foi a bola? Cruzou a linha fatal? E quem sou eu, ou, o que sou, naquela intensa explosão do gol a nosso favor? Ou quando é preciso se defender, colocando, no último instante, um pé salvador, que salvará os nossos do pior? O inimigo, o outro, se sabe, pode ser ardiloso. E, se nos descuidamos, pode entrar área dentro, e nos fuzilar! Todo cuidado é pouco. Infinitas vezes, somos só atenção, e mesmo assim, vem o fuzilamento! Mas se houver força, engenhosidade e persistência, há vida inteligente, mesmo depois do fuzilamento. Eu mesmo, posso lembrar, há memórias que não me deixam na mão, de ocasiões em que o impossível acontece. Volta-se à vida, com os nossos nos reconduzindo a uma ressureição improvável. 
Esse Festival, reencontro permeado e temperado com elementos do Eu ideal, tem tempo e hora marcados. Aproveitemos. A vida real (?!) não está fácil. Tentar ser adulto nessa época com tantas incertezas parece tarefa insustentável. Nosso presente parece não avançar, não sair de um tempo em que, como descrevia Chico Buarque, foi, é:

“Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações”

Vai passar, letra e música de Chico Buarque.

Aproveitemos. Nesse Festival ainda nos é permitido viver-sonhar-desejar uma outra pátria-realidade. Moldada com a têmpera de nossos melhores anseios.

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores.)