05.10.20 Editorial OP – setembro/2020  

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo.

 

Editorial – setembro/2020 

Mal percebemos que saímos de agosto e ainda comentávamos o ensaio de Sylvain Levy (SPBsB) daquele mês (“Uma ideia sobre a dinâmica da manutenção do poder da elite brasileira”), com frases que faziam referência a “aquela formulação penosa de que só começando de novo” (Cintia Albuquerque, SPBsB) ou à necessidade de, mais um pouco, sem saber quanto mais, encontrar na escrita e na troca aquilo que nos dê esperança (na linha do que nos disse Claudio Eizirik, SPPA). Setembro começou com a clarividência de que “a noção de tempo mudou”, como nos disse Katia Barbosa Macedo (SPBsB e GEPG), no primeiro ensaio do OP do mês, “Mergulhando no transitório”.

 

Em “Efeitos da pandemia nos relacionamentos conjugais estáveis”, Gley Silva de Pacheco Costa (SBPdePA) nos diz que “o confinamento e o distanciamento social oferecem uma sobrecarga considerável a qualquer relacionamento, por melhor que seja”. Pode não haver acordo sobre o que seja uma relação saudável, mas certamente há sobre essa constatação. “Não devemos subestimar a influência da duração da pandemia, tendo em vista que, ao estender-se demasiadamente, tem determinado um esgotamento das capacidades emocionais dos cônjuges”. Pois é, ninguém fica imune a esta peste para a qual ainda não há vacina e a essa alteração no tempo provocada pela indefinição de sua duração.

 

Nas palavras de Katia: “Freud escreveu um texto abordando a transitoriedade, onde descreve uma conversa com o poeta Rilke que, assombrado diante da finitude, se mostrou desesperançoso. Pontua que é, justamente por essa noção de fim, que cada segundo passa a ter uma nuance especial, um convite à fruição do momento único”.  Setembro veio para falar do que vem ameaçando diariamente esta fruição: aquilo que não é a morte comum inerente ao estar vivo, mas sim fenômenos globais provocados pela ação humana. 

 

Em “Ensaio sobre ‘o dilema das redes’, a subjetividade algorítmica'”, Eduardo Rocha Zaidhaft (SBPRJ) discute o filme da Netflix que “demonstra como, no contexto atual, o mercado é mais guiado pela produção do desejo das pessoas do que pelos produtos desejados”. Ele explica: ” O silogismo é suficientemente simples, como entendo dos entrevistados do documentário: se usamos um serviço de uma empresa, por exemplo o bilionário Facebook, que não é pago por nós usuários, quem arca com estes valores são os anunciantes. Se quem paga é o anunciante, logo este é o cliente. Se quem recebe o dinheiro é o vendedor, o que é que exatamente está sendo vendido? Esta resposta a propaganda sabe há muito: os usuários são o produto, ou, melhor, a predição sobre a mudança do desejo dos sujeitos que é o produto.” Problematiza-se, então, que efeito destrutivo isso tem sobre a sociedade, ainda mais se considerarmos a combinação com outros fenômenos que levam a um narcisismo exacerbado. 

 

Em “A fumaça do fogo pantaneiro”, Paulo Márcio Bacha (SPMS, SPRJ) traz à discussão as chocantes e trágicas queimadas no Pantanal. Trata do desejo de dominar o fogo – e de como ele é potencialmente destrutivo. Devolve aos humanos que iniciaram as queimadas e ao governo negligente a responsabilidade que têm – e a tirania destrutiva que implicam. 

 

Na última semana de setembro o mundo atingiu a marca de um milhão de mortos em função da COVID-19. Silenciamos. 

 

Voltamos, então, à Katia, que nos oferece versos de Carlos Pena Filho, convocando-nos a resistir: “Com tudo que é insolvente e provisório / E de que ainda tens uma saída / Entrar no acaso e amar o transitório”. A proposta de Eduardo é que nós, como analistas, sejamos guardiões de Eros – “à psicanálise, entendo que cabe se posicionar nesse cenário, procurando dar foco justamente ao que as máquinas, mesmo as mais inteligentes, não têm: o desejo, o sentido e o afeto.”

 

Ludmila Frateschi (SBPSP), em “Entre o anedotário e o obituário”, um texto que tem “leveza e profundidade”, “duas qualidades que por si só são difíceis de alcançar, mais ainda quando vem juntas” (como diz Raya Zonana (SBPSP) e humor, (“uma das formas de combater o fanatismo”, segundo Sergio Lewcowicz (SPPA), nos conta um pouco sobre a corda-bamba entre processar os lutos e seguir vivendo, sem cair na lógica do “cada um por si”. Como condensa Suzana Muskat (SBPSP): “Rir para não deprimir, escrever e compartilhar aqui neste espaço,  para não sermos contaminados e condenados ao  ‘cada um por si’. Aqui somos muitos. Gostei muito deste anedotário que fala de nosso país que vai se anestesiando  como antídoto pro trauma e para o insuportável”. 

 

Apelam também a Eros as nossas colegas Gabriela Seben, Juliana Lang Lima e Rafaela Degani (SBPdePA), “O que a humanidade está gestando nessa pandemia?”, no qual elas nos contam sobre seu trabalho de valorizar e escutar as grávidas desse período, propondo pensar em como guardar a esperança de futuro.  Ele emociona, como nos revela o comentário de Eliane Nogueira (SBPdePA):  “Meu sonho de ser avó está adiado há  meses e parece que 2021 está tão longe… mas saber de vcs e deste erotismo inadiável me alegra e me sossega um tantinho…obrigada pelo texto”.  Paula Januzzi Serra (SBPMG) brada: “Que a força do feminino possa sobrepujar tanta destrutividade”. E Ane Marlise Port Rodrigues (SBPdePA), ressalta: “A força de Eros se revela ainda na produção escrita de vocês” – no OP e no livro de que nos contam. 

 

Este editorial marca o mês que passou e outubro que começa. Que seja um mês em que o OP siga em retroalimentação erótica com todos que dele participam, para que possamos nos manter atentos ao mundo, pensando, amando e trabalhando. Com tudo e apesar de tudo.

 

Curadoria OP

 

Beth Mori (SPBsb)

 

Daniela Boianovsky (SPBsb)

 

Ludmila Frateshi (SBPSP)

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

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