01.02.21 Editorial – Observatório Psicanalítico – dezembro/2020

Ensaios sobre acontecimentos sociopolíticos, culturais e institucionais do Brasil e do Mundo.

 

 Editorial – dezembro/2020

 

31 de dezembro de 2020 e nós, da equipe de curadoria, ao mesmo tempo em que celebrávamos os resultados do ano, nos confessávamos tristes, um pouco enlutadas e apreensivas. “Como relaxar e aproveitar a vida num contexto tão ruim?” e “como se posicionar entre a mania, de um lado, e a paranoia, do outro?” – foram questões que nos acompanharam ao longo de todo o ano, tanto na reflexão sobre as nossas próprias vidas como no pensamento clínico sobre nossos pacientes.

 

Fomos requisitados pelo isolamento, nós e nossos pacientes, a um contato maior conosco mesmos e com aquilo de nós mesmos de que não gostamos. Nas palavras de Joyce Goldstein (SPPA) sobre o ensaio de Gustavo Gil Alarcão (SBPSP): “tenho pensado no que é simples e complexo, no que pode e não pode, no que sinto e no que não sinto e as vezes não quero sentir”.

 

Fomos também requisitados, nós e nossos pacientes, a um contato maior com a morte e a transitoriedade, por um lado, e a uma intensificação e explicitação daquilo que nos diferencia, por outro. Nossa singularidade, decorrente de nossas histórias, marcada por nossos privilégios ou pela ausência deles, foi posta à prova e, nos melhores casos, enriqueceu-se. No bordão que virou o sampler de Belchior na canção “AmarElo”, de Emicida, “Ano Passado eu morri, mas esse ano eu não morro”: parte de nós morre, mas parte de nós também se enriquece daquilo que perdemos.

 

Por fim, fomos requisitados a nos posicionarmos como analistas-cidadãos, mais do que como clínicos, em um contexto político que ameaça as liberdades individuais e as condições mínimas de igualdade.

 

Tudo isso serviu de tema ao nosso OP, no qual foram publicados 81 ensaios de analistas de nossas Sociedades em todo o Brasil em 2020. Entendemos que o OP serviu ao grupo como espaço de encontro e elaboração, como uma espécie de cidade (pólis), já que com as cidades reais perdemos contato na pandemia. Serviu como espaço de conversa sobre os acontecimentos que nos atravessam e também como espaço de ritualização de algumas das perdas e mortes que nos atingiram.

 

O ano terminou num mês com muitos ensaios, como não poderia deixar de ser. Foram sete.

 

Frente a uma movimentação de resistência que congregou diversos psicanalistas de diferentes instituições a se oporem à política federal de saúde mental, começamos com Ney Marinho (SBPRJ) no ensaio “ADEUS AO MESTRE” que homenageia o professor Portella Nunes e o seu legado de luta contra um empobrecimento da discussão sobre saúde mental. Nas palavras de Ney: “Nossa saudade é mais intensa ao ver, no presente, psicanálise e psiquiatria tão afastadas, sem qualquer diálogo, num lamentável desperdício de ricas experiências, sob ângulos diversos, da milenar loucura”. Emendamos com “DIZEM QUE SOU LOUCO”, de Liana Albernaz de Melo, também da SBPRJ, questionando o lugar da loucura em tempos pandêmicos:  “Psicanalistas têm compromissos éticos. Temos compreendido no corpo e na mente – e esse é um ganho da pandemia – que somos afetados pelo coletivo. A saúde mental de cada um tem a ver com a de todos”. Destacamos aqui o comentário de Sonia Eva Tucherman (SBPRJ) sobre texto da Liana: “Assim como eu, muitos de nós psicanalistas fomos polidos no torno da psiquiatria dinâmica, libertária, humana, das comunidades terapêuticas progressistas com Cerqueira à frente da DINSAM, Oswaldo Santos no antigo CPP II (atual Nise da Silveira) junto com Simplício, e Quilelli no Pinel. Tempos que parecem tão remotos, mas que, no entanto, são tão recentes, permanecem indeléveis e, para dissabor dos adoradores do obscurantismo, continuam semeando, fertilizando e fortalecendo a resistência contra a destrutividade”. 

 

Rodrigo Lage Leite (SBPSP) publicou na sequencia o ensaio “ESSES CARAS…“, sobre uma das mesas da edição virtual da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), com Caetano Veloso e Paul B. Preciado. Num texto leve e bem humorado, Rodrigo nos faz pensar sobre a importância de eventos que colocam diferentes áreas de conhecimento em diálogo sobre os temas que nos afetam, ultrapassando as fronteiras (e os limites) de cada disciplina. Rodrigo provoca: “Um novo ‘relançar de apostas’ em que a inteligência volta ao lugar de algo valorável, admirável, e ressitua a delicadeza no âmbito dos afetos. Belo encontro coroado com a promessa de Preciado de que lerá “Grande Sertão: Veredas” instigado pela lembrança de Caetano sobre a pergunta de Manuel Bandeira em carta a Guimarães Rosa. Por que não deixar Diadorim ‘homem até o final da história’? Segundo Caetano, seu psicanalista considera a pergunta uma estupidez. Ele próprio a considera fascinante. Penso que seria auspicioso ouvir a promessa dos psicanalistas de que lerão os livros de Preciado – ‘Manifesto contrassexual’, ‘Texto junkie’ e ‘Um apartamento em Urano’ – antes de tentar respondê-la”. Sergio Lewcowicz (SPPA) aceita e complementa a provocação: “Tanto os analistas como as instituições psicanalíticas persistem em uma ambivalência em relação a normatizar a sexualidade em oposição a uma visão mais singular e específica de cada pessoa. Ainda não parece haver analistas transgênero nas nossas instituições no Brasil e só recentemente foram aceitos candidatos declaradamente homossexuais para a formação analítica e, ainda há certa ambivalência em relação a eles”.

 

O “CENTENÁRIO DE CLARICE LISPECTOR” mereceu o texto, nas palavras de Ruggero Levy (SPPA), “fino e sensível”, escrito por Fernanda Speggiorin Alarcão (SBPSP), que delicadamente celebra essa que, como a psicanálise, “era das funduras”. Fernanda não esmaga com palavras as entrelinhas, pelo contrário, as deixa ecoando cheias de afeto.

 

Um grande acontecimento nos atravessou no finzinho do mês e recebeu o pungente ensaio “O FIM DOS CABIDES ENSANGUENTADOS (Pelo menos na Argentina)” de Aline Santos e Silva (SBPdePA): a aprovação do direito ao aborto na Argentina. Diz a autora: “Cabe lembrar de Mary Wollstonecraft (1759-1797), filósofa e escritora inglesa, considerada uma das ‘mães’ dos estudos feministas. É de sua autoria a potente frase: ‘Não desejo que as mulheres tenham poder sobre os homens, e sim, sobre elas mesmas.'” Nada mais analítico do que ser dono do próprio desejo.

 

Por fim, dois dos textos do mês falam sobre os atravessamentos clínicos da pandemia a partir do olhar sobre o fim do ano. Gustavo Gil Alarcão (SBPSP), em “UM SIMPLES ABRAÇO”, nos conta de uma situação clínica em que um abraço se impõe – a ele e ao paciente. Escreve: “Um gesto espontâneo é um gesto livre e ainda pode ser sentido como um gesto absolutamente amoroso. Como eu queria que todos tivessem sentido o calor daquele abraço. Todos nós, que estamos sufocados e asfixiados por tudo isso aí. Um abraço-transgressivo, suficientemente transgressivo: um gesto espontâneo, em tempos que afetos precisam também romper limites”. O texto, muito comentado, despertou reflexões e relatos sobre outras situações e experiências clínicas semelhantes. Nas palavras de Marion Minerbo (SBPSP):  “Naquele breve momento, analista e paciente compartilharam um humilde reconhecimento de que ninguém é de ferro, somos apenas humanos. A castração é para todos”.

 

O último ensaio do ano, “‘SOBRE A TRANSITORIEDADE’: Travessia de uma Pandemia em 2020”, de Denise Aizemberg Steinwurz (SBPSP), tratou da transitoriedade e do confronto de todos nós com ela durante a pandemia. Luciana Saddi (SBPSP) o comentou, aproveitando para retomar o papel deste Observatório e fazer desejos para 2021: “Um ano em que sejamos cada vez mais capazes de falar e escrever  sobre os sofrimentos, os nossos e os alheios, porque somos da comunidade humana e do Observatório Psicanalítico”.

 

Enfim, conversamos tanto por aqui, e de forma tão desdobrada (analítica?), que precisamos criar pequenos momentos de síntese, para que não nos perdêssemos na produção infinita de sentidos – desde maio e contando este texto, foram oito editoriais produzidos pela nossa equipe. O OP esteve no Congresso da FEPAL, numa mesa muito relevante sobre a crise das democracias na América Latina. Foi ainda espaço de articulação e circulação de manifestos. Estamos orgulhosas.

 

Estamos orgulhosas também da primeira série temática que criamos, para responder à discussão cada vez mais amplamente difundida sobre a exclusão do povo preto e que aproveita como título a hashtag de um movimento maior, “Vidas negras importam”. Mais do que uma discussão identitária, trata-se de uma conversa ampla que inclui muitos aspectos. Citamos aqui apenas alguns, que conseguimos reconhecer nos textos: como cada um de nós se relaciona com o poder e a violência? Como as nossas instituições lidam com a diversidade e a ausência dela? O que se pode aprender clinicamente da experiência de exclusão, seja sob seu viés traumático, seja sob o viés do que permite ao humano resistir e desenvolver potências em contextos adversos? O que há de riqueza e bonança humanas em lugares em que nossos olhos preconceituosos ou assustados muitas vezes só veem carência? Aproveitamos este editorial para reforçar nosso convite a que esta reflexão continue e se expanda em 2021 e que os integrantes deste grupo escrevam suas ideias, mesmo que não as considerem ainda exatamente prontas. Reforçamos também nosso compromisso de publicar cada vez mais textos escritos por analistas negros, de qualquer tema.

 

E, assim, nos despedimos já dizendo “oi”, nos recolhemos para o final do ano já nos preparando para o recomeço desta semana. Que 2021 venha um pouco mais brando, e que possamos não nos paralisarmos com suas marcas. Como, de novo, diria Emicida, “permita que eu (algo de mim?) fale, não as minhas cicatrizes”. Nas palavras de Miguel Sayad (SBPRJ) em uma das conversas de dezembro, que siga sendo assim: “OP facilitando a palavra livre, a força da palavra publicada”.

 

Curadoria OP

 

Beth Mori (SPBsb)

 

Daniela Boianovsky (SPBsb)

 

Ludmila Frateshi (SBPSP)

 

(Os textos publicados são de responsabilidade de seus autores).

 

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Os ensaios do OP são postados no site da Febrapsi. Clique no link abaixo:

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